Fica, vai ter floresta

Expedição reúne 120 pessoas de todo o Brasil para ver de perto iniciativas inovadoras de restauração florestal nas cabeceiras do rio Xingu, no Mato Grosso

Por Isabel Harari, jornalista do ISA, e Tatiane Ribeiro, jornalista da Rede de Sementes do Xingu

Magaró Ikpeng olha com atenção a floresta ao seu redor. As árvores impressionam pela imponência e variedade: xixá, pequi, baru, cajueiro, carvoeiro, mamoninha, copaíba, e tantas outras compõem um extrato variado de espécies nativas do Cerrado e da Amazônia. O que há nove anos era uma área degradada pelo plantio de grãos e pecuária, hoje virou uma floresta em crescimento que promove sombra e protege a água na fazenda Schneider, no município de Querência, Mato Grosso.

“Eu quero ver se as nossas sementes germinaram”, diz Magaró, que faz parte do Movimento das Mulheres Yarang, grupo de coletoras de sementes da Associação Rede de Sementes do Xingu (ARSX). Ela veio representar as mais de 75 coletoras ikpeng, que vivem no Território Indígena do Xingu (TIX), para ter certeza que as sementes coletadas, beneficiadas e armazenadas por seu grupo estão cumprindo o papel de restaurar as áreas degradadas na região.

Magaró Ikpeng, liderança do Movimento das Mulheres Yarang, durante o plantio na fazenda Rancho 60. Foto: Camila Grinsztejn/ Amazonia Live

Magaró foi uma das 120 pessoas de todo o Brasil que percorreram ao longo de quatro dias a região das cabeceiras do rio Xingu para ver de perto os resultados do trabalho de restauração florestal realizado pelo Instituto Socioambiental (ISA) e pela ARSX.

Foram mais de mil quilômetros percorridos no noroeste do Mato Grosso por indígenas, agricultores familiares, produtores rurais, pesquisadores, representantes do governo, de empresas e de organizações do terceiro setor. Todos eles, participantes da 3ª Expedição da Restauração Ecológica e da Rede de Sementes, puderam conhecer os caminhos das sementes: da coleta em aldeias indígenas, assentamentos rurais e cidades, até o destino final, as florestas restauradas em propriedades na região.

Assista o caminho percorrido pelos participantes da expedição no vídeo abaixo:

O tal do pertencimento

Quem descansa sobre as sombras das árvores na fazenda Cristo Rei, outro local visitado pela expedição, pode não perceber que aquela área é resultado de um trabalho em rede feito por indígenas, agricultores familiares e urbanos, além de técnicos especializados em restauração.

José Luiz, proprietário da Fazendo Cristo Rei, explica sobre a área em processo de restauração realizado em parceria com o ISA. Foto: Dannyel Sá.

A árvore de xixá, por exemplo, é fruto de uma semente coletada pela dona Vera Alves, coletora de sementes que vive no município de Nova Xavantina. Outra árvore, a de baru, veio de uma semente colhida por Kyrykwat Kawaiwete, da aldeia Kwaryja, no TIX.

Os 568 coletores que fazem parte da Rede de Sementes do Xingu são responsáveis pela coleta, beneficiamento e armazenamento das sementes florestais nativas. Hoje a Rede conta com 15 núcleos de coletores de sementes em 18 municípios nas bacias do Xingu e Araguaia, abrangendo 14 Assentamentos Rurais, uma Reserva Extrativista na Terra do Meio (PA) e 17 aldeias de sete povos que vivem em quatro Terras Indígenas.

A coletora Vera Alves, de Nova Xavantina, maneja as sementes de manjoleiro. Foto: Eder Irber/ARSX

Com mais de dez anos, a ARSX tem um conjunto de critérios e protocolos construídos conjuntamente com os coletores e hoje é uma referência na produção comunitária de sementes. “É uma visão de negócio de cadeia produtiva, com uma coisa que eu aprendi aqui: o tal do pertencimento. É extraordinário”, conta Severino Ribeiro, coordenador nacional do Pacto pela Restauração da Mata Atlântica e membro do Centro de Pesquisas Ambientais do Nordeste (Cepan).

A imponência das árvores também é consequência de um sofisticado monitoramento feito pela equipe de “plantadores de floresta” do ISA. Os técnicos auxiliam no preparo da área e depois realizam o plantio utilizando a “muvuca de sementes”, técnica que consiste em uma mistura de sementes nativas e de adubação verde para a formação da estrutura da floresta.

A muvuca pode ter uma variedade de até 80 tipos de sementes florestais nativas. Foto: Camila Grinsztejn/ Amazonia Live

A muvuca pode ter até 80 espécies de sementes e cada uma tem a sua função ecológica: “uma planta domina o ambiente em uma época, e ao morrer, ela gera mais matéria orgânica e prepara o ambiente para próxima espécie que vem”, explica Daniel Vieira, do Centro Nacional de Recursos Genéticos (Cenargen) da Embrapa. “A muvuca, aparentemente, é sinônimo de ser uma mistura qualquer de sementes, mas na verdade tem muita ciência envolvida”, comenta. Saiba mais sobre a muvuca aqui.

Em mais de dez anos de trabalho, já foram recuperadas quase seis mil hectares de áreas degradadas na bacia do Xingu e Araguaia e outras regiões de Cerrado e Amazônia. Para isso, foram utilizadas mais de 220 toneladas de sementes de 220 espécies nativas.

“Já percorremos um longo caminho. Vamos seguir construindo possibilidades de diversidade e continuar trabalhando para que mais florestas sejam restauradas Brasil afora”, comenta Rodrigo Junqueira, do Conselho Curador da ARSX e coordenador do programa Xingu do ISA.

Mitos desconstruídos

Na fazenda Vera Cruz do Xingu, próxima à Cristo Rei, existem duas nascentes que correm para o território dos Kalapalo, no TIX. “A gente se sente bem responsável por cuidar dessas nascentes, porque o que eu faço aqui vai refletir no meu vizinho, na aldeia indígena, vai chegar no Xingu. É toda uma cadeia interligada”, comenta Henrique Carneiro, proprietário da área.

A parceria da fazenda com o ISA e ARSX começou há pouco mais de um ano, e uma área de 13 hectares já está em processo de restauração. Para Henrique, o diferencial desse trabalho, que começou como uma necessidade legal de adequação ambiental, é a interlocução de diversos atores que antes não dialogavam: indígenas, agricultores, ambientalistas e produtores rurais.

Henrique Carneiro, proprietário da Fazenda Vera Cruz, na área em recuperação em sua propriedade. Foto: Laura Antoniazzi

“Eu sei tudo sobre soja, mas plantar floresta é diferente. Eu preciso de ajuda, então eu preciso do ambientalista perto de mim. Eu não sei como eu vou coletar sementes, eu preciso da rede, dos índios perto de mim, eu preciso da ajuda deles. Aí é uma relação que fica sustentável”, pondera o fazendeiro.

A jovem Milene Alves, coletora de sementes do núcleo de Nova Xavantina desde os 14 anos, define o trabalho como “uma quebra de mitos”. “Você quebra com o mito que o produtor é ruim, que o indígena é preguiçoso, que o técnico ‘se acha o mais inteligente’. Não é nada disso! quando colocamos essas pessoas juntas temos um grande resultado”.

“Coragem, determinação e diálogo”. É assim que Eliane Felten, secretária de Administração de Canarana, descreve o trabalho. Ela foi secretária de Agricultura e Meio Ambiente do município por 12 anos e acompanha as iniciativas de restauração desde 2004. “A nossa primeira grande sacada foi a palavra ‘parceria’, juntar todo mundo em uma mesma mesa para conversar”, comenta.

Os jovens Kamapulaka Wauja e Amanajup Kawaiwete, participam do plantio com Artemízia Moita, gerente do setor ambiental dp grupo Agropecuária Fazenda Brasil. Fotos: Camila Grinsztejn/ Amazonia Live

Universidades, empresas, fazendas, assentamentos rurais, redes de sementes, aldeias, organizações da sociedade civil, centros de pesquisa e governo. A origem dos participantes da expedição refletiu a diversidade que é a marca do trabalho feito pelo ISA e pela ARSX. Da bacia do Rio Doce, em Minas Gerais,ao Vale do Paraíba, em São Paulo, da Universidade de Santa Maria, no Rio Grande do Sul, ao Mosaico do Gurupi, no Maranhão, da Fazenda São Roque à Reserva Extrativista do Rio Iriri: responsáveis ou colaboradores de iniciativas de restauração no Brasil estavam presentes no Xingu.

Vanderlei Augusto, coletor do Assentamento Banco da Terra, em Nova Xavantina (MT), mostram para os participantes da expedição a coleta e o beneficiamento das sementes. Fotos: Eder Irber/ARSX

“A semente tem um poder indescritível de unir os diferentes. Tem essa capacidade de sair de uma mata dentro de uma Terra Indígena, dentro de uma reserva legal, de um assentamento ou de uma cidade, e passar pela mão de várias pessoas até chegar na floresta. Ao passar por essas pessoas diferentes, ela vai fazendo uma costura que eu acho que é a grande virtude do nosso trabalho: aproximar histórias diferentes, visões de mundo diferentes em prol de uma floresta mais viva e de uma paisagem mais sociodiversa”, conta Rodrigo.

Bakités de buriti

As coletores saem com suas filhas e netas e armazenam as sementes em seus bakités. Camila Grinsztejn/ Amazonia Live

A coletora indígena Vira Xavante mostra orgulhosa as três variedades de milho coletadas nas imediações da aldeia Ripá, Terra Indígena Pimentel Barbosa. Ela faz parte do grupo de coletoras Nödzö’u e percorre grandes distâncias a pé, no território Xavante, para colher as sementes. Além do milho, ela exibe variedades de angico, caju, dedaleiro, tento olho de cabra e por fim, mostra na palma da mão um punhado de buriti.

Os buritizais ocupam terrenos alagáveis e são encontrados a cerca de quatro quilômetros de distância da aldeia. É ali que as coletoras levaram os participantes para ajudar na coleta do fruto. “Essas sementes são produtos naturais do Cerrado, são da terra, coletadas no nosso território”, explica orgulhoso José Tserenhomo Xavante, cacique da aldeia.

Mulheres xavante coletam o buriti em regiões alagadiças, nos arredores da aldeia. Fotos: Camila Grinsztejn/ Amazonia Live

Horas depois, com os imensos bakités (cestos tradicionais xavante) cheios de buritis recém colhidos, Vira e as mulheres coletoras mostram como se beneficia o fruto: elas mastigam a polpa sem retirar a fina película que envolve a semente, mantendo a umidade para preservá-la no armazenamento. Animadas, as crianças ajudam a descascar a mascam a fruta, que tem um gosto forte e adocicado. “Nunca vamos deixar de coletar o buriti, nos alimentamos dele e damos para os nossos netos,e também é bom para evitar doenças”, diz Vira.

Florestas do futuro

Ao entrar nas sombras da floresta plantada há dez anos na fazenda Rancho 60, Cida Martins, coletora do Projeto de Assentamento Caeté, comenta com dona Zélia Morato, do quilombo André Lopes, no Vale do Ribeira (SP): “é uma floresta com semente que eu coletei. Eu me sinto importante. Isso é uma coisa que reflete o seu esforço. Você vê a floresta e tem a certeza de que vale a pena”.

Magaró Ikpeng, liderança do Movimento das Mulheres Yarang, durante o plantio na fazenda Rancho 60. Foto: Camila Grinsztejn/ Amazonia Live

Na Rancho 60, no município de Bom Jesus do Araguaia, 37 hectares estão em processo de restauração. E no último dia da expedição mais 3 hectares entraram na conta. Os participantes ajudaram a fazer uma grande muvuca de sementes e o plantio de uma área degradada nas imediações de uma das Áreas de Preservação Permanente (APP) da fazenda.

São mais de 270 quilos de 70 tipos de sementes nativas: cajuzinho da mata, ipê, mamão, baru, caju, carvoeiro, jenipapo, xixá, mutamba, dentre tantos outros. O amontoado de sementes é colocado em um carreta puxada por um trator e um pequeno grupo de pessoas sobe no veículo para ajudar a fazer o plantio “a lanço”. Magaró Ikpeng se apoia na caçamba e olha com atenção para a muvuca, com a certeza de que ali tem semente coletada por ela e que, no futuro, vai ter floresta.

Xingu sob pressão

Nas cabeceiras do Xingu, no Noroeste do estado do Mato Grosso, existem mais de 22.500 nascentes que contribuem para a formação de diversos rios, a maioria com pouca proteção e com as matas ciliares sob constante pressão das atividades agropecuárias. Estima-se que aproximadamente 200 mil hectares de matas de beira de rio — que são uma categoria de APP — estejam degradadas. Nos últimos 10 anos, mais de 1 milhão de hectares foram desmatados na bacia do Xingu.

A ARSX já ajudou a restaurar cerca de 6 mil hectares na região das cabeceiras do Xingu. Foto: Falcon Filmes

O desmatamento das cabeceiras do Xingu e os impactos sobre todos os corpos d’água da bacia, incluindo o próprio rio Xingu, levou as lideranças indígenas do então Parque Indígena do Xingu a articular uma iniciativa de responsabilidade socioambiental compartilhada, a campanha Y Ikatu Xingu (“Salve a água boa do Xingu”, na língua Kamaiurá), lançada em 2004.

Três anos depois, com o crescimento da demanda por sementes nativas para restauração das áreas degradadas, foi criada a Rede de Sementes do Xingu.

Por meio da união entre indígenas, agricultores familiares, o ISA, poder público e produtores rurais, foi consolidada uma iniciativa inovadora de restauração de áreas degradadas na região, que usa o maquinário disponível nas fazendas e o plantio direto de sementes, gerando renda para as comunidades locais e valorizando seus conhecimentos tradicionais.

Tawaiku alerta para os riscos do desmatamento no Xingu. Foto: Eder Irber/ARSX

Tawaiku Yudjá, que vive na aldeia Tuba Tuba, na região do baixo Xingu, explica que ainda hoje é preciso proteger o entorno do território. As secas, pragas e fogo descontrolado, consequências do desmatamento e da intensificação da monocultura, impactam diretamente a disponibilidade de recursos naturais importantes para os índios, como as sementes.

“A natureza explica para nós que se a gente não cuidar, a semente pode desaparecer”, alerta o jovem, que é articulador da Rede de Sementes do Xingu no TIX e aprendiz de pajé em sua comunidade.

 

 

Parte da expedição em frente a uma área em restauração. Foto: Caio Corrêa/Amazonia Live

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