O diálogo entre o pensamento indígena e as questões do reflorestamento é tema de apresentação em congresso

Indígenas do Xingu e Rede de Sementes trazem reflexões sobre as dimensões do reflorestamento durante o Belém +30

As reflexões de ¨lugar¨ por meio da restauração ecológica em uma das regiões mais emblemáticos do Brasil, a Bacia Hidrográfica do Xingu, foi  o tema de uma das sessões organizadas no 16º Congresso da Sociedade Internacional de Etnobiologia, o Belém+30. Indígenas Wauja e Kawaiwete, uma jovem coletora urbana e dois pesquisadores foram os apresentadores de diferentes perspectivas que se unem durante a sessão ¨A Potência do Plantio de Espíritos¨, que aconteceu no dia 8 de agosto.

¨A importância de estar presente em um evento como esse é a oportunidade de divulgar as iniciativas e realizar a aproximação de diversas dimensões – cultural, espiritual, epistemológica, ambiental e social –  e sobre o debate da restauração e do plantio¨, diz Dannyel Sá, assessor do Instituto Socioambiental (ISA), organizador da sessão. 

Bélém + 30, 16º Congresso da Sociedade Internacional de Etnobiologi. Foto: Dannyel Sá

¨O que queremos é que os conhecimentos dos indígenas, que é o conhecimento dos espíritos, influencie a forma de pensar a restauração dos não-indígenas¨, explica Kátia Ono, também assessora do ISA e uma das organizadoras da sessão. ¨Estamos fazendo esse esforço mas há ainda pouco diálogo com os técnicos e acadêmicos que considere as formas que os indígenas constroem e pensam o território. É importante que isso influencie a restauração florestal e vice-versa.¨

O mote principal da apresentação segue a lógica de que a floresta com gente é um lugar por inteiro, que tem significados subjetivos e parâmetros ecológicos complexos. O desmatamento rompe com todos esses símbolos e cria conflitos que aprofunda o antagonismo entre cultura e o modo de vida, a espiritualidade e os valores das comunidades indígenas que vivem no Território Indígena do Xingu (TIX).

Ao expor as ações desencadeadas pela Campanha Y Ikatu Xingu, as experiências adaptativas desenvolvidas pelos indígenas do TIX e pelos coletores de sementes não-indígenas a sessão demonstrou como a restauração tem o potencial de conciliar interesses comuns para a resolução de problemas diferentes mas que dialogam.

Método socioambiental

Daniel Vieira, pesquisador da Embrapa Cenargen (Brasília-DF), mostrou os resultados das pesquisas sobre o plantio via semeadura direta de ¨muvuca¨. Em seu estudo foram avaliadas as mudanças em estrutura e composição de espécies em 72 áreas restauradas ao longo de dez anos com plantios de 1 a 10 anos de idade. Os resultados demonstram que o método teve sucesso na fase inicial da restauração florestal.

Público durante sessão organizada. Foto: Dannyel Sá

¨Como esse método foi desenhado de forma a semear alta densidade de sementes exige também muita gente para coletar semente. Então existe um impacto social que é gerar renda para 568 pessoas que fazem parte da Associação Rede de Sementes do Xingu¨, explica.

O trabalho dos coletores das sementes pela perspectiva da juventude da Rede foi o tema da apresentação de Milene Alves, membro do núcleo coletor do município de Nova Xavantina (MT). ¨O desmatamento e as mudanças climáticas têm afetado o nosso trabalho porque agora os coletores andam mais para encontrar matrizes sadias¨, conta.

Diversidade de olhares

A presença dos indígenas trouxe para o debate a importância de reconhecer as diferentes formas de entendimento e conhecimento da natureza de cada povo indígena do Xingu. O povo Wauja, por exemplo, está desenvolvendo o próprio modelo de recuperação de áreas degradadas.

Entre os principais desafios citados está o fogo, o controle das gramíneas invasoras e diferentes expectativas dos membros da aldeia. ¨Recomeçamos o trabalho da roça e trouxemos os jovens para aprender com os mais experientes¨, conta Tariauip Kayabi. ¨Percebemos a diminuição das sementes tanto da roça como as do reflorestamento e perguntamos ao pajé o que está acontecendo. Ele nos explicou que estão ocorrendo muitas mudanças que interferem na produção das sementes e que devemos cuidar melhor das plantas¨, explica.

Para Sá, a repercussão da sessão foi bastante positiva. Cerca de 30 pessoas com perfis diferentes estiveram presente e fizeram perguntas variadas. ¨Perguntaram questões técnicas sobre a muvuca, do plantio, dos rituais que os indígenas fazem para plantar árvores e outras que estimularam bastante o debate¨, descreve.

Tariaiup Kaiabi, Amutu Waurá, Tapiyuwa Waurá, Amaki Wautá, Katia Ono, Milene Alves e Ayakanukala Waurá,

O assessor também menciona que é de suma importância a realização de mais eventos acadêmicos como esse que se colocam abertos às contribuições dos conhecimentos dos povos tradicionais. ¨Fizemos uma abordagem inédita que trouxe uma diversidade tanto de pontos de vista como de público o que fomenta o diálogo entre a diversidade de perspectivas¨, conclui.

 

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