Por dentro da reunião com os Elos

Ao menos quatro vezes por ano, os Elos das quatro etnias coletoras do TIX se reúnem com técnicos do projeto para trocar informes e relatos e trabalhar em melhorias nos processos de coleta, entrega e venda de sementes. Nos dias 12 e 13 de outubro aconteceu no Pólo Diauarum, Território Indígena do Xingu, a última reunião do ano com os Elos locais.

Na ocasião, fez-se um balanço das entregas (o que ainda falta coletar, o que não vão entregar) e a redistribuição entre os grupos. Das espécies que o Território Indígena do Xingu não vai conseguir completar a entrega este ano, seja por causa das queimadas sem controle devido às mudanças climáticas, que também atrasam a chuva, pelo ataque de insetos ou nos tempos de luto, quando onde a toda a comunidade para seus trabalhos, estão: angelim-do-cerrado, angelim-saia, arapari, capitão-do-campo, baru, cafezinho-do-pasto, cajazinho e copaíba. As sementes remanejadas internamente foram amescla, carvoeiro, ingá, bacaba, baru, jatobá-da-mata, embaúba, mamoninha e leiteiro-da-mata.

Este monitoramento é um processo muito importante para garantir as entregas na Rede como um todo. É também quando surgem as oportunidades de compartilhar e tirar dúvidas sobre desafios específicos, como por exemplo quando as sementes ficam paradas muito tempo e estragam, como limpar determinada espécie e se algum grupo ficou sobrecarregado e não dará conta de coletar todas as sementes do pedido. Também falou-se da importância da padronização na classificação de sementes que possuem mais de uma espécie e da estréia dos Matipu, que realizaram sua primeira entrega após oficina para aprender a pesar as sementes.

Como compartilhou Tawaiku Juruna, muitos ainda encontram dificuldades de armazenamento e transporte das sementes. Por outro lado, há um crescente interesse de jovens das comunidades em entrarem para a Rede. Todos os Elos afirmaram a necessidade de novos equipamentos, como motor de rabeta para facilitar o transporte de sementes na época de estiagem, quando rio tem suas águas baixas, peneiras e sacos de armazenamento de tamanhos variados, sombrites, lonas e tesouras de poda, chapéus, óculos de proteção e roupas apropriadas para a coleta.

Claudia Araújo (RSX) contou um pouco sobre ações externas envolvendo o projeto, como a conquista do prêmio Desafio Ambiental da WWF – Brasil, a Moção de Aplausos, a ação com o Amazônia Live no Rock In Rio e o evento Xingu +, realizado em Brasília, além do projeto DGM, iniciado em outubro.

Uma vez que a comunicação entre os grupos é difícil por causa das distâncias e dificuldades de transporte e conexão, o encontro também teve um momento de planejamento das atividades para 2018, incluindo festas tradicionais, encontros e uma novidade no calendário dos coletores, que a partir do ano que vem vão mandar o potencial em janeiro e receber o pedido em fevereiro.

A voz do Xingu dentro da Agroecologia

O encontro também deu oportunidade para que Tariaiup Kaiabi, novo Elo dos grupos Kawaiweté, contasse sobre as atividades realizadas em seu núcleo coletor nos últimos meses e desse um relato, junto com Oreme Otumaka Ikpeng, sobre sua participação no VI Congresso Latino-Americano de Agroecologia, que aconteceu em setembro em Brasília.

Tari, que por um descuido da organização do evento só conseguiu falar por cinco minutos sobre seu trabalho, intitulado “Centro de estudos e multiplicação de sementes da roça”, avaliou a experiência positivamente. “Vi alguns trabalhos sobre sementes, apicultura e coisas da roça para me atualizar e pude conversar com calma com as pessoas que queriam mais informações sobre a minha apresentação”.

 Oreme mostrou seu projeto sobre valorização da cultura do cultivo de roça, trabalho de conclusão de curso no EMIEP (Ensino Médio Integrado à Educação Profissional) e apresentou o filme “Antes da Chuva”, que discute as mudanças climáticas sob o ponto de vista de jovens coletores da Rede de Sementes do Xingu. “Vi duas apresentações inspiradas pela Rede, indicando-a como fonte”, contou, orgulhoso, “Mas de diversos trabalhos sobre indígenas, apenas cinco eram apresentadas por nós”, observou.

Por Carol Ramos, com colaboração de Bruna Lourenção

 

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