Teoria, prática e diversidade cultural compõem Mostra Socioambiental do Araguaia

Com o tema “Araguaia Rios Vivos”, a 6ª edição do evento, em São Félix do Araguaia (MT), aprofundou debate sobre o empoderamento no campo e contou com feira de produtos da agricultura familiar

A VI Mostra Socioambiental do Araguaia e V Feira de Economia Solidária, de São Félix do Araguaia (MT), reuniu, entre os dias 15 e 17 de junho, agricultores familiares de assentamentos rurais, comunidades indígenas, técnicos e estudantes da região em um evento diversificado que contou com seminário, oficinas, exposição e apresentações culturais.

¨A proposta da Mostra é mostrar aos moradores da cidade a riqueza de produtos e atividades que existem nos assentamento”, explicou Ana Lúcia Silva Souza, da Associação de Educação e Assistência Social Nossa Senhora da Assunção (Ansa), instituição que organiza o evento. Ela aponta que, mais do que a apresentação da grande diversidade de produtos e saberes, o evento é um importante espaço de reflexão e diálogo sobre as cadeias dos produtos da floresta – como as sementes, frutas e artesanato.

Cerca de 20 diferentes grupos de assentamentos rurais, aldeias, escolas e parceiros como a Associação Rede de Sementes do Xingu (ARSX) e Articulação Xingu Araguaia (AXA),além de secretarias municipais, sindicatos e instituições de ensino participaram da Mostra.

Seminário de abertura da VI Mostra Socioambiental do Araguaia. Foto: Liebe Lima – AXA

Saúde do solo e cidadania

O seminário da abertura com o tema “Araguaia Rios Vivos”, realizado no Centro Cultural Tia Irene, contou com a presença do Engenheiro Agrônomo Sebastião Pinheiro, do Núcleo de Economia Alternativa (NEA) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Ele ministrou uma oficina de análise de saúde do solo que pode ser aplicada por agricultores com uso de ferramentas de baixo custo, proporcionando mais autonomia e empoderamento na prática agrícola.

“A turma de estudantes presente pode ter acesso a mais informações sobre conservação do solo e presenciar algo prático¨, contou o professor Welker da Silva, que ministra cursos com o mesmo tema na escola técnica em Porto Alegre do Norte.

Oficina de análise da saúde do solo com Sebastião Pinheiro. Foto: Liebe Lima – AXA

No domingo foi a vez de Liebe Lima, da AXA, gestionar a oficina ¨Cidadania e Prosa¨ onde cerca de 40 mulheres agricultoras familiares e indígenas participaram de uma roda de conversa sobre produção agrícola, políticas públicas e exercício da cidadania. ¨Tentamos aproximar as políticas públicas de quem mais precisa delas. Por isso trabalhamos diretamente com os próprios atores, que são as agricultoras e as indígenas, por meio de uma metodologia onde todas contam e escutam suas próprias histórias e assim se fortalecem enquanto sujeito e coletivo numa causa comum¨, explica Liebe.

Durante a oficina foi realizado um diagnóstico sobre as cadeias para entender o que os grupos produzem e uma lista de demandas e iniciativas necessárias para tornar o mercado local mais inclusivo.

Estandes de esteiras e de diversidade cultural

A exposição dos produtos aconteceu durante o fim de tarde de sábado e a manhã e final de tarde do domingo no espaço da Feira Municipal de São Félix do Araguaia. Roupas, artesanatos, alimentos in natura e processados, pratos e bebidas típicas de diversas regiões do país, ervas medicinais, bijuterias entre outros produtos de cerca de 60 expositores preencheram as estandes customizadas com esteiras de palha.

Coletores da Associação Rede de Sementes do Xingu estavam entre os expositores. Cleuza Nunes de Paula trouxe para Mostra bolo de farinha de babaçu e bolsas feitas de palha de buriti. Dona Odete Severino Barbosa expôs potes com doces caseiros de banana, abóbora com banana e farinha de coco, doce de mamão com leite e castanha, doce de casca de laranja e doce de limão galego. Ambas são coletoras e moram no Projeto de Assentamento (PA) Macife, em Bom Jesus do Araguaia.

Dona Odete Severino Barbosa coletora da ARSX e moradora do PA Macife. Foto: Tatiane Ribeiro – ARSX

Cleusa Nunes de Paula coletora da ARSX e moradora do PA Macife. Foto: Tatiane Ribeiro

Raimunda Alves, do PA Manah, da cidade de Canabrava do Norte, trouxe buriti, cocada, paçoca de carne seca, requeijão, óleo medicinal de coco de macaúba e peças de crochê.  Já Maria de Sena Divina e seu esposo Francisco Vieira Alves venderam farinha branca, puba, abóbora e queijo. Todos são coletoras da ARSX e moradores do PA Dom Pedro, de São Félix do Araguaia.

As coletoras indígenas xavantes Carolina Rewaptu, Lidia  Pehu e Aline Petri, das aldeias Madzabdzé, A`õpá e Etewawe, respectivamente, também estiveram presentes com diversas peças de artesanato indígena.

Coletoras Xavantes da ARSX. Foto Liebe Lima – AXA

As apresentações culturais ficaram por conta de cantores regionais como Levi, Felipe Moura e violeiros que fizeram o encerramento do evento. O evento também contou com um recital de poemas dos estudantes da escola rural da comunidade Zé Trezentos, do município de Novo Santo Antônio e encenação teatral do grupo de jovens da igreja Santa Terezinha, da Prelazia de São Félix do Araguaia.

¨Percebemos que a cada ano o público da Mostra aumenta, mas ainda nos preocupamos em inserir cada vez mais assentados como expositores¨, explica Ana Lúcia, da Ansa.

Por Tatiane Ribeiro

 

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