Uma rede feita de elos

8º módulo do curso de gestores da ARSX integra agricultores e indígenas em formação com foco em desenvolvimento pessoal e coletivo


Uma das características mais marcantes da Associação Rede de Sementes do Xingu (ARSX) é a diversidade. Formada por coletores urbanos, indígenas e agricultores da área rural, a rede é um mosaico de personalidades que trabalham juntos em prol de uma missão: colaborar com o reflorestamento das cabeceiras do rio Xingu.

Regina Erismann e Oreme Ikpeng durante dinâmica no 8° Gestores. Foto: Tatiane Ribeiro

Essa missão que nasceu da demanda dos indígenas do Território Indígena do Xingu (TIX) foi um dos primeiros tópicos trabalhados durante o 8º módulo do ¨Gestores¨, curso de formação de líderes realizado pelo Instituto Ecosocial em parceria com a ARSX e o Instituto Socioambiental (ISA). O encontro, que aconteceu do dia 27 a 29 de novembro, na cidade de Nova Xavantina, reuniu pela primeira vez indígenas e agricultores da ARSX que ocupam o papel ¨elo¨, ou seja, de liderança na gestão da rede, e abordou temas como definições de função, construção de sonhos e visão de futuro.

Em parceria com a ARSX desde 2016, o instituto oferece serviços de consultoria e coaching e aplica ações específicas para o desenvolvimento do trabalho caracterizado como produção e comercialização de sementes nativas na região do Xingu-Araguaia. ¨Construímos em conjunto um modelo de tomada de decisão que engloba os elos indígenas e não-indígenas de forma a trabalhar temas de interesse comum que os possibilite a atuarem com mais autonomia em suas comunidades¨, explica Regina Erismann, consultora do Ecosocial.

Grupo de coletores urbanos e rurais desenham o fluxo de trabalho. Foto: Tatiane Ribeiro

¨Há um tempo eu quis parar de fazer esse curso porque não aplicava no meu grupo. Hoje eu vejo que o fato de eu estar aqui significa que eu sou uma gestora e que realmente posso ajudá-los com o que aprendo, mesmo eu sendo mais quieta e tendo um pouco de vergonha¨, contou Mauricélia Ferreira da Silva, coletora, moradora do Projeto de Assentamento (PA) Manah, em Canabrava do Norte (MT).

Dinâmica indígena

Responsáveis por temas como a logística, os elos intermediam as ações entre os coletores, a casa das sementes e a diretoria. O foco desse módulo foi o desenho do fluxo desse trabalho anual de cada um deles, pois cada grupo tem uma dinâmica própria conforme as características do local  e das pessoas com quem atuam.

No caso dos indígenas os grupos das etnias Ikpeng, Waurá, Matipu, Kawaiweté e Yudja, que estiveram presentes tem que se preocupar, por exemplo, com as viagens de barco pelo rio Xingu para o transporte das sementes e também com a tradução dos conceitos para a idioma original, o entendimento de toda aldeia sobre o trabalho desenvolvido, entre outras funções. ¨Aqui é mostrado um jeito de organizar essas ideias que facilita o meu trabalho como articulador e vendo aqui todos com pensamento positivo, com a energia forte, me sinto forte com eles¨, conta Tawaiku  Juruna, articulador de dois grupos coletores do povo Yudja dentro do TIX.


O esclarecimento das funções dentro da rede é uma questão transversal que tem sido trabalhada pela equipe nesse momento de mais de dez anos de existência. Dannyel Sá, assessor da ARSX, explica que devido a diversidade de atores a rede tem dificuldade de aplicar ações homogêneas e nesse sentido a caracterização é importante para fortalecer a relevância de cada papel e animá-los no desempenho das tarefas. ¨Esse foi o primeiro passo para trazer a tona os entraves em cada grupo e assim saber como isso influencia na produção, se está relacionado a falta de recursos e o que podemos fazer para que a participação deles seja reconhecida e valorizada.¨

Carolina Pinheiro e Cleusa Nunes de Paula durante dinâmica com Abeldo e Elcio Xavante. Foto: Claudia Araújo

Com os Xavantes, por exemplo, Carolina Pinheiro, indigenista da ONG Operação Amazônia Nativa (OPAN) e um dos elos institucionais da rede, mostrou como resolveu questões de quantidade de entrega de sementes junto as coletoras da Terra Indígena Marãiwatsédé. Elcio Xavante, da aldeia Santa Cruz Ripa, Terra Indígena Pimentel Barbosa, também explicou como foi importante ser chamado para trabalhar em parceria com Abeldo Virawi, que já era elo, por conta de uma questão cultural onde tudo é feito em dupla, com a junção de pessoas dos dois diferentes clãs dentro do sistema de governança Xavante.

¨A forma de trabalhar com desenhos durante o curso ajudou bastante eles a contarem como funciona na aldeia. Ao longo das atividades se soltaram bastante e disseram o que estava pensando, o que estavam fazendo. Isso é muito bacana¨, comenta Carol.

¨Dessa forma fortalecemos os atores por meio do alinhamento e das ferramentas e assim conseguimos cada vez mais fazer acontecer a gestão compartilhada da rede, que é o nosso objetivo durante esses cursos¨, conta Marli Pereira, consultora do Ecosocial.

Desafios, conquistas e próximos passos

Bruna Dayanna Ferreira de Sousa, diretora da ARSX, frisa que ter todos os atores representados nesse módulo foi uma conquista que reafirma a missão da rede com um olhar mais integrado. Claudia Araújo, também diretora da instituição, diz que o Ecosocial captou bem essa demanda e ao ajudar a trazer mais autonomia para os grupos, consequentemente ajuda na autonomia da diretoria também.

Dinâmica pela manhã de observação da semente Foto: Tatiane Ribeiro

¨O que falta ainda é saber como se comunica aquilo que se aprende. Esse é o nosso desafio atual para que a comunicação seja mais horizontal na ponta e a continuação dos cursos nos ajudará nisso¨, conclui.

Para os próximos módulos a ideia é trabalhar melhor a tomada de decisão em grupo, a gestão de conflitos, entre outros assuntos. Ana Lúcia Souza, da Associação de Educação e Assistência Social Nossa Senhora da Assunção (ANSA) e também elo institucional da ARSX, afirma que participar da formação faz cada um refletir sobre o que quer para rede e para si, que mesmo sendo intenso é transmitido uma calma, um olhar mais humano de como está essas pessoas que trabalham com outras pessoas. ¨Saímos mais leves sabendo que estamos no caminho certo. O que acontece com os grupos está em conexão com o que a rede propõe para cada um e ter indígenas e jovens participando juntos nessa construção é muitíssimo importante.¨

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