Rede de pessoas e de aprendizados

Formação trabalha as relações dentro da diversidade da ARSX e mostra que a força da rede está na interação dos diferentes

Por Tatiane Ribeiro

“Trabalhar com gente não é fácil”. O chavão muitas vezes utilizado para contar a experiência de lidar com pessoas na vida profissional faz parte do tema principal do 9º módulo do curso de Gestores da Associação Rede de Sementes do Xingu (ARSX): as relações. Com 600 coletores, a rede tem o desafio de articular e fazer trabalhar em conjunto grupos de culturas e localidades diferentes alinhados na mesma missão: a de coletar sementes nativas para promover a restauração dos rios na bacia Xingu-Araguaia.

Por meio da parceria com o EcoSocial e o Instituto Socioambiental (ISA), as consultoras Regina Erismann e Marli Pereira da Silva trabalharam durante quatro dias reflexões e dinâmicas com um grupo de 30 participantes, responsáveis por fazerem a gestão nos núcleos de coleta da ARSX. O evento aconteceu na cidade de Nova Xavantina, entre os dias 29 de abril a 2 de maio, e faz parte da formação continuada dos chamados “elos” que acontece desde 2016.

“Nesses onze anos de existência da rede a gestão de pessoas sempre foi um dos maiores desafios porque há várias dificuldades como, por exemplo, o entendimento de alguns termos pelos coletores, a tradução da matemática que utilizamos para os indígenas. Por isso apostamos na formação de elos locais e esse curso nos ajuda a formá-los para fazer melhor essa gestão”, explica Cláudia Araújo, diretora da ARSX.

Erismann conta que em cada módulo o conteúdo avança com um tema conforme as demandas apresentadas pelos próprios coletores. Dessa vez aprendizados sobre como lidar com conflitos, ciúmes, dificuldades na relação homem-mulher, como vencer a timidez e outras questões relativas a gestão das pessoas estavam na pauta.

“A rede é feita por pessoas que mantêm uma interação e interdependência, então essas relações são fundamentais para ajudar na fluidez dos processos e assim alcançar os resultados esperados. É justamente por meio das pessoas que conseguimos cumprir a missão”, afirma Silva.

Hora do teatro

Grupo de teatro “Desafios” apresentando a peça “Telefone Sem Fio”.

A abordagem do tema promoveu uma inovação na metodologia utilizada pelas consultoras. Dessa vez os participantes realizaram uma encenação sobre situações que acontecem dentro das comunidades e influência os coletores como desentendimentos entre casais, confusão na hora de repassar informações, falta de motivação para participar das reuniões, entre outras.

“O teatro possibilita a expressão de ideias e sentimentos por meio dos seus personagens e isso ajuda muito a aproximar as pessoas da realidade em que vivem e isso pode ser compartilhado com o grupo. É uma ferramenta muito adequada para tratar situações mais complicadas em grupos heterogêneos pois coloca todos em contato com os seus sentimentos”, explica Silva.

“Eu me identifiquei muito no teatro, vi que os problemas que eu enfrento são mais comuns do que eu pensava. Apareceram formas de resolver porque mexer com gente é difícil e assim a gente vai aprendendo. O que eu vi aqui dá para utilizar lá”, conta Eliane Righi, coletora do Projeto de Desenvolvimento Sustentável (PDS) Bordolândia, de Bom Jesus do Araguaia.

Dinâmica dos bastões de cobre para aprimorar o trabalho em equipe. Foto: Tatiane Ribeiro/ARSX

Outra dinâmica bastante comentada foi a dos bastões de cobre onde os participantes em círculo repassavam um para o outro os bastões. “Fiquei pensando no começo ‘o que vou fazer com isso aqui fora?’. Mas a gente viu que tudo reflete no nosso trabalho. O ato de passar o bastão para o outro nos mostra que sem o outro a gente não trabalha bem, precisamos compartilhar, foi fundamental”, explica Ana Cláudia Timóteo Barbosa, do Projeto de Assentamento (PA) Dom Pedro, em São Félix do Araguaia. “Mexer com gente é difícil, sempre tem aquela pessoa com personalidade diferente da sua. E a rede não é só de sementes, mas de pessoas, com diversidades no modo de pensar, tem os que moram do outro lado, muito distante de você, em uma outra realidade, como os indígenas, por exemplo.”

Diferentes e complementares

Essa é a segunda edição em que os indígenas participaram da formação e novos integrantes da rede e puderam aprender mais sobre o funcionamento de outros grupos como é o caso do Pedrinho Waurá, do povo Waurá que veio da aldeia Piyulaga, do Território Indígena do Xingu.

“Sai da aldeia sem saber o que ia acontecer e aqui aprendi coisas novas que não acontecem na base, ou seja, lá na aldeia. São muitas coisas interessantes, no primeiro dia achei que não ia conseguir porque não dá para aprender tudo de uma vez, mas um pouco eu vou conseguir levar”, conta.

Tari Kayabi, do povo Kayabi, também do TIX, está na rede desde 2014 mas é a primeira vez que participa do curso de gestores. “Esse curso ajuda a gente, nos prepara para o nosso trabalho e nós precisamos disso. Porque a forma de organização não-indígena não é diferente da nossa, então o Gestores me ensina como funciona a rede, a associação para trabalhar dentro das normas”, diz. “Como dizem os professores ‘ quando você aprende algo fica mais rico’ então eu estou saindo daqui com uma experiência nova de organização, aprendi muito, estou muito feliz.”

Contação de histórias: o conto do Caranguejo Carrancudo. Foto: Tatiane Ribeiro/ARSX

Para as consultoras o resultado é percebido durante o curso por meio do grau de interação, dos sorrisos e brincadeiras entre os participantes. “Nos momentos difíceis o grupo permaneceu unido e empático. O que me toca nesse trabalho é perceber que as pessoas, independente de onde elas vêm, tem necessidade de interação e pertencimento e o caminho é sempre o diálogo e a abertura do coração para poder acolher as diferenças e se tornar um só corpo, uma só rede”, diz Silva.

“Nós conseguimos transpor as barreiras e todos nos encontramos não só aceitando mas admirando as diferenças. Isso foi muito bonito. Trabalhamos não só os bastões, o teatro mas também a contação de histórias para trazer imagens inspiradoras e todos se expressaram. Até mesmo uma indígena que falava muito pouco, se levantou e falou em sua própria língua um discurso de agradecimento no final. Como sempre trabalhar com a rede é uma vivência muito forte e prazerosa”, conclui Erismann.

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